Pedaços de história #3 - 1893-1894: o gigante nasce e adormece

Até há não muito tempo, o FC Porto comemorava o seu aniversário no dia 2 de Agosto, reportando-se a 1906, ano em que o clube teria sido fundado por José Monteiro da Costa. Foi apenas no mandato de Jorge Nuno Pinto da Costa que a data de fundação foi alterada em assembleia geral para 28 de Setembro de 1893, quando Rui Guedes, autor da Fotobiografia do FC Porto, apresentou aos dirigentes portistas a tese, devidamente comprovada por documentos históricos, de que a "fundação" do FC Porto em 1906 mais não foi do que uma reactivação de um clube fundado treze anos antes por um amigo pessoal de José Monteiro da Costa, não apenas com o mesmo nome mas também, em grande parte, com os mesmos sócios-jogadores.

No início da década de 1890, António Nicolau d'Almeida, sócio de uma empresa de exportação de vinho do Porto, regressa de Inglaterra encantado com o football. Atleta do Vélo Club do Porto, sugere ao clube a adopção desta nova modalidade, que florescia já em Lisboa desde a segunda metade da década anterior, sob a alçada dos irmãos Pinto Basto, que trouxeram as primeiras bolas de futebol para o país. Perante a recusa da colectividade, António Nicolau d'Almeida, com o apoio de alguns amigos da alta sociedade portuense, cria o Football Club do Porto, no preciso dia em que o Rei D. Carlos completava 30 anos e a Rainha D. Amélia 28.

"Fundou-se no Porto um club denominado Football Club do Porto, o qual vem preencher a falta que havia no norte do paiz, de uma associação para os jogadores d'aquella especialidade. No segundo domingo de outubro inaugura-se o club officialmente, com um grande match entre os seus socios no hyppodromo de Mattozinhos. Ouvimos dizer que serão convidados alguns clubmen de Lisboa. Que o Football Club do Porto apure um grupo rijo de jogadores e que venha medir-se ao campo com os jogadores do Club Lisbonense, do Real Gymnasio Club, do grupo de Carcavellos ou de Braço de Prata, para animar os desafios de football como já o são as corridas de cycles. Eis o que desejamos." (notícia no Diario Illustrado de 28 de Setembro de 1893)

De facto, no segundo domingo de Outubro do mesmo ano - ou seja, a 8 de Outubro - os sócios-atletas do FC Porto realizam um treino quase secreto, no Campo do Prado, em Matosinhos, e cerca de uma hora depois apresentam-se no hipódromo da mesma cidade para a primeira partida da história do clube, na qual tomaram parte 22 sócios do FC Porto. O Jornal de Notícias do dia afirmava que "este interessantíssimo jogo é uma novidade no Porto e há grande entusiasmo, tendo-se feito já algumas apostas". No domingo seguinte realizava-se nova partida, e no dia 25 do mesmo mês António Nicolau d'Almeida endereçava a Guilherme Pinto Basto, presidente do Club Lisbonense, um convite para uma partida a realizar no dia 2 de Novembro. O clube lisboeta aceitou o repto, mas 2 de Novembro era demasiado cedo. O desafio acabou por ficar marcado para o dia 2 de Março do ano seguinte, uma sexta-feira. O Rei D. Carlos, com quem ambos os presidentes mantinham relações de amizade, propôs que a partida fosse integrada nas comemorações oficiais do quingentésimo aniversário do nascimento do Infante D. Henrique, que se comemorava nesse ano. Disponibilizou-se ainda a oferecer uma taça em ouro e prata com o seu próprio nome para que fosse atribuída ao vencedor, impondo para tal duas condições: cada uma das equipas deveria alinhar com um mínimo de seis jogadores portugueses e os clubes teriam que jogar em representação das respectivas cidades. Assim, embora estivessem em campo o FC Porto e o Club Lisbonense, disputava-se na realidade um Porto x Lisboa.

A partida realizou-se no actual Campo Alegre, no campo do Oporto Cricktet and Lawn-Tennis Club. Tendo os monarcas, cuja viagem de Lisboa ao Porto durara cerca de 14 horas, chegado quando já decorria a segunda parte, as equipas acederam jogar dez minutos para além dos noventa regulamentares, sem que os golos marcados nesse período contassem para o resultado final. Venceu Lisboa por 1-0, tendo marcado ainda um segundo golo no tempo extra.

A última notícia que se refere explicitamente ao Football Club do Porto no século XIX menciona um treino de duas horas, no hipódromo de Matosinhos, no dia 11 de Março de 1894. É aí que o FC Porto (a par, refira-se, de todo o futebol português da época) adormece, despertando doze anos depois para uma nova e gloriosa existência.

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quinta-feira, setembro 28, 2006 @ 16:27 GMT ::: link ::: topo



1000 e poucas palavras #1

José Maria Pedroto e Pinto da Costa - campeões nacionais 19 anos depois

José Maria Pedroto e o então chefe do departamento de futebol Jorge Nuno Pinto da Costa - campeões nacionais 19 anos depois

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segunda-feira, setembro 25, 2006 @ 19:32 GMT ::: link ::: topo



Pedaços de história #2 - Revigrés: como um símbolo

Foi notícia nos jornais de ontem a renovação do contrato entre o FC Porto e a Revigrés, celebrado pela primeira vez em 1983. No ano anterior Jorge Nuno Pinto da Costa assumia a presidência do FC Porto, sendo a colocação de publicidade nas camisolas um dos seus grandes objectivos, a par, entre outros, do rebaixamento do Estádio das Antas (que viria a acontecer em 1986) e da criação de uma revista mensal (em 1985 nascia a Dragões).

Ao entrar em acordo com a Revigrés no primeiro dia de Agosto de 1983 o FC Porto tornou-se o primeiro clube português a celebrar contrato com um patrocinador e a inserir publicidade nas camisolas. Nas duas décadas que se seguiram o FC Porto e a Revigrés cresceram lado a lado, com o clube a afirmar-se como o maior de Portugal e a assumir lugar de destaque na Europa enquanto a empresa de cerâmica de Águeda conquistava, também ela, reconhecimento e prestígio nacionais e internacionais.

1984-85: a primeira equipa campeã com a Revigrés na camisola
1984-85: a primeira equipa campeã com a Revigrés na camisola

Fundador da Revigrés (em 1977) e ainda presidente da empresa, Adolfo Roque é tido por Pinto da Costa como "um amigo sincero para todas as ocasiões". Sobre ele, o presidente relata na sua autobiografia duas histórias curiosas:

"Corria o ano de 1992, confraternizávamos com o pretexto dos meus dez anos de Presidência e, em cinco minutos, com um aperto de mão "selámos" o acordo. Passados dois anos, rigorosamente cumprido que fora o contrato por ambas as partes, resolvemos renová-lo. Só então demos conta que o aperto de mão era tudo (e bastava) o que havia como contrato!"


"Noutra ocasião, durante o "reinado" de Eduardo Catroga como Ministro das Finanças, é-nos hipotecado o Estádio e a sanita do balneário do árbitro. O Eng.º Roque, sem qualquer obrigação, e no mais completo anonimato, envia-nos um cheque de cinco mil contos para ajudar a resolver o problema. Talvez isto ajude a compreender que, ao fim de mais de vinte anos, o azul do Porto se confunda com a Revigrés."

De facto, a publicidade da Revigrés assumiu um estatuto no FC Porto que a assemelha a um verdadeiro símbolo do clube. De tal modo que, quando em 2003 o contrato sofreu uma redefinição, passando o nome da Revigrés a figurar apenas nas camisolas usadas pelo FC Porto nas competições internacionais (nas competições internas foi substituído pelo logotipo da PT), muitos adeptos consideraram esta substituição parcial da Revigrés no uniforme azul e branco como uma perda de parte da identidade do clube.

A tão forte identificação não será indiferente o facto da Revigrés estar associada ao período mais glorioso da história do FC Porto - desde que o seu nome passou a figurar nas camisolas portistas a ascenção do clube foi meteórica. E apesar de não ter estado presente nas finais de 1987 (ao que parece, até meados dos anos 90 a UEFA não via com bons olhos este tipo de publicidade), a Revigrés marcou a imagem de numerosas conquistas do FC Porto: Taças de Portugal, Supertaças, Campeonatos Nacionais - incluindo o Penta - e mais recentemente as grandes vitórias de Sevilha, Gelsenkirchen e Yokohama. Nas palavras de Pinto da Costa, "a Revigrés e o Eng.º Adolfo Roque fazem parte da História do Clube".

2003-04: campeões da Europa com a Revigrés
2003-04: campeões da Europa com a Revigrés

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quarta-feira, setembro 20, 2006 @ 03:26 GMT ::: link ::: topo



Pedaços de história #1 - 18-09-1996: Benfica 0 x 5 Porto ou o dia em que o Artur foi multado

Lembro-me do dia 18 de Setembro de 1996. Estava em casa com os meus pais, o meu irmão e o meu avô. Apreensivos, como é normal antes de um jogo do Porto, neste caso especialmente por se tratar de um jogo contra o Benfica no Estádio da Luz, decisão da Supertaça para a qual trazíamos uma magra vantagem da primeira mão. Aos três minutos o Porto marcou o primeiro. O resto é - literalmente - história. Foi há precisamente dez anos.

18 de Setembro de 1996, 21h30
Estádio do SL Benfica, Lisboa
Árbitro: António Rola, auxiliado por Carlos Faustino e Artur Fernandes

SL Benfica: Preud'homme, Calado (Tahar, 73'), Hélder, Bermudez, Dimas (Iliev, 50'), Bruno Caires, Jamir, Valdo, Gustavo, Donizete e João Vieira Pinto. Treinador: Paulo Autuori

FC Porto: Wosniak, João Manuel Pinto, Lula, Jorge Costa, Fernando Mendes, Paulinho Santos, Sérgio Conceição, Wetl (Rui Barros, 70'), Zahovic, Edmilson (Jardel, 60') e Artur (Drulovic, 52'). Treinador: António Oliveira

Foram cinco marcadores para cinco golos, marcados aos 3, 43, 46, 56 e 85 minutos. Os golos podem ser vistos aqui. Os marcadores? Quem, como eu, costumava ir aos treinos à caça dos autógrafos dos jogadores reconhecerá as suas assinaturas:

Cinco bolas, cinco golos, cinco autógrafos

Quem não conseguir, reconhecerá pelo menos as suas caras sorridentes no postal comemorativo lançado em Novembro de 1996:

Artur, Edmilson, Jorge Costa, Wetl e Drulovic

No dia seguinte, nem os mais vermelhuscos dos jornalistas tiveram como furtar-se à devida vénia:

"Satisfeito, o FC Porto abandonou o estádio da Luz com a nona Supertaça, ao mesmo tempo que o Benfica saía de rastos, vergado ao peso de uma derrota histórica!" (Jornal de Notícias)


"O FC Porto provou de novo que tem escola. Pelo menos de carácter. Os jogadores mostram em campo uma atitude invulgar nas equipas portuguesas. Disputam cada lance a tempo inteiro. De uma época para a outra, nem as muitas mudanças de nomes no onze inicial e a profunda alteração táctica introduzida por António Oliveira fizeram perder o essencial. Um clube que tem estes profissionais só pode sentir-se feliz. Foi sem dúvida brilhante, a todos os níveis, a vitória portista!" (Record)


"O FC Porto foi rei e senhor e levou até à maior das exuberâncias a sua indiscutível superioridade." (A Bola)


"E ante aquele FC Porto que não parava de surgir invariavelmente autoritário e dominador na defesa, capaz de tudo resolver - e sempre prestes a disparar contra-ataques como setas envenenadas, o Benfica, tresloucado e inseguro, tremia como varas verdes perante a visão terrível daquele FANTASPORTO." (A Bola)

A Bola: Fantasporto!

JN: Supergoleada do FC Porto na Luz

O Jogo: Terramoto

Record: Brilhante

Algumas curiosidades sobre a partida:
- Apesar de ter saído lesionado aos 52 minutos, Artur foi unanimemente considerado o melhor jogador em campo, tendo marcado o primeiro golo e feito a jogada e assistência para o segundo.
- Aloísio não jogou por opção técnica (!)
- O jogo realizou-se no dia do 23º aniversário de Mário Jardel. Além disso, durante a partida, no Porto, nascia o seu primeiro filho, Mário Jardel Jr..

O passeio pela rua da memória (tradução literal de walk down memory lane, e até nem fica mal :o)) não estaria completo sem recordar a anedota que circulou até à exaustão na minha escola nos dias que se seguiram à partida: Sabias que o Artur foi multado depois do jogo? É verdade... por excesso de velocidade e por passar por muitos vermelhos!

No meu blog pessoal assinalei a data com este mesmo post. Por toda a web, muitos outros Portistas fizeram questão de comemorar tão significativo aniversário nos seus blogs:

Apre

Azul e Branco

Blog do Lucho

Curva

Dragalhadas do Dragão

Fêcêpê: Orgulho e Glória

O Cafajeste

O Dragão

O Gil

Óculos Azuis e Brancos

Os Barbeiros de Jesualdo

Pobo do Norte

Portogal

Sou Portista com Muito Orgulho

X-tema

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segunda-feira, setembro 18, 2006 @ 14:08 GMT ::: link ::: topo



O primeiro

Neste blog que hoje inauguro pretendo celebrar o FC Porto: a sua história, os seus símbolos, os seus adeptos. No meu blog pessoal faço pequenos comentários aos jogos e à actualidade do FC Porto, e muito melhor do que eu fazem-no muitos outros Portistas em dezenas de blogs listados à direita. Não é esse, contudo, o objectivo deste blog - este é muito mais um álbum de recordações do que um diário. Sejam bem-vindos todos os Portistas!

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@ 13:16 GMT ::: link ::: topo




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fontes
A principal fonte de informação e imagens para o presente blog são os 16 volumes da História Oficial do FC Porto, de Alfredo Barbosa, editada pelo Comércio do Porto. São também consultados o Livro de Ouro do FC Porto, edição do Diário de Notícias, e a autobiografia de Jorge Nuno Pinto da Costa, Largos Dias Têm 100 Anos, bem como o site oficial do FC Porto e edições passadas de jornais, de entre os quais se destacam A Bola, Jornal de Notícias, O Jogo, O Norte Desportivo e Record. Quaisquer outras fontes serão identificadas nos respectivos posts.






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